Ela que é gueixa e é Alice, que orienta os meus passos no País das Maravilhas. Sabe que o Coelho é também Chapeleiro e toma chá no meio da tarde. Menina das cores suaves e nomes desconhecidos. Delicadeza. Origami que me dobra. Ela que canta baixinho, enquanto desenha o que fica atrás dos olhos. Negros. Águas calmas onde mergulho, enquanto ela voa.
Precisava ir embora. Não aguentava mais viver com ele. Depois de alguns meses juntos, o Soldadinho de Chumbo, começou a mostrar quem realmente era. Não queria que ela dançasse, nem usasse o vestido de bailarina. Dizia que botar as pernas de fora era coisa de prostituta. Mulher dele, tinha que viver pra tomar conta do seu homem e da sua casa, que mais parecia um quartel. Talvez, por ter uma perna só, ele se sentisse humilhado e para descontar a sua raiva do mundo, a humilhava também. Dizia que nunca faria sucesso, que ficar na ponta dos pés numa caixinha de música, não fazia dela especial. Depois de um tempo, começou a beber. Ela não podia mais suportar. Um dia, soube que o circo tinha chegado na cidade. Era sua chance. Achou um jeito de ser levada pra lá e na matinê do domingo se escondeu na mala do trapezista. A bailarina fugiu com o circo e foi parar na Rússia, mas nunca conseguiu dançar no Bolshoi.
Porque o abraço dele era porta fechada. E nem todas as armas e armadilhas podiam alcançá-la dentro daqueles braços. O mundo e o medo ficavam lá fora. E os pensamentos que sussurravam ameaças ao pé do ouvido iam silenciando a cada batida do coração. Dele, que era dela. Quando algum sentimento perigosamente falava mais alto, ela o apertava ainda mais forte, como se tentasse atravessar de uma pele pra outra e deixar a sua vida ali perdida na dele.
Aurora de todas as horas. Aurora do dia. Aurora da noite. Aurora até o entardecer. Quando o céu fica cor de rosa e o sol vai embora. Sol, que mora do outro lado da Aurora. Passando pela Santa Isabel ou pela Duarte Coelho. Porque a Aurora é assim, cheia de histórias. Dessas que ficam marcadas nas ruas e nos rostos. Aurora de tempos áureos. De antigos casarios. De passados, de lembranças. Onde o velho se transforma em novo. Despistando a morte e o esquecimento. Renascendo na arte, Aurora da Criação. Que transforma o monumento em libertação. Que grita em silêncio. E clama contra a injustiça, a dor e o sofrimento. Aurora da vida. Vida que corre em suas portas e janelas de todas as cores. Pelas calçadas e pelas pontes. As três pontes da Aurora, braços sobre o Capibaribe. Aurora que tenta alcançar o mar. Mas, o mar da Aurora é de gente. Um mar que passa e não pára. O dia todo, todos os dias. E quando a Aurora silencia, a cidade dorme até que outra aurora possa chegar e despertar.
Era um homem atormentado por fantasmas. Não de antepassados, histórias contadas, medos ancestrais. Não. Era atormentado pelos fantasmas do que viria a seguir. No próximo emprego, no próximo encontro, na próxima esquina. E contra esses fantasmas, não tinha como lutar. Seria completamente novo, surgiria do nada, transformaria o agora. Como lutar contra o inesperado? Ele estava indefeso. Com os fantasmas do que viria a seguir lhe impedindo de seguir adiante, porque era adiante que morava o perigo. Foi assim que o homem atormentado pelos fantasmas do que viria a seguir, virou fantasma também. O medo da vida o matou. Foi flagrado tentando assombrar Gerson Rissin, que distraído com o momento presente, nem reparou nas possibilidades assustadoras que o minuto seguinte poderia lhe trazer e seguiu o seu caminho sem sustos.